O que aconteceu com os nossos espaços de hobby?
Em tempos de crise o capitalismo se fascistiza. A Internet corporativa caminha para fechar seus tentáculos para controlar as expressões e manifestações das pessoas online. É um projeto para perfilar manifestantes, antifascistas e esquerdistas - a internet se fascistizava e nada foi feito, a conformidade interfere apenas quando aflora o sentimento revolucionário.
Esta atual etapa é a final de um processo histórico de repressão iniciado nos anos 50 - anos esses pautados pela erupção de regimes repressivos por todo o ocidente, sejam eles executados pela conformidade institucional como ocorreu nos EUA ou na Inglaterra ou sejam eles as sanguinárias ditaduras na América Latina.
A juventude dos anos 50 e 60, pelo que me foi dito, era bastante impetuosa. No Brasil as crianças estavam brigando no intervalo por causa de discordâncias quanto ao genocídio na Palestina. A identidade da juventude tinha uma enorme faceta anti-conformista e anti-conservadora, criando assim a estereotipia do jovem de 16 anos vestindo moicano e balançando alta uma bandeira do anarquismo ou a foice e o martelo. Como toda estereotipia, não era uma identidade absoluta, mas ainda era representação de algo suficientemente expressivo.
A juventude conservadora dos dias de hoje, os puriteens, os neofascistas, os jovens reacionários, os redpill - eles são a etapa final do processo de subsituição de um futuro revolucionário por um futuro conservador, O Fim da História.
A Etapa 1 desse processo foi a eliminação física da juventude e daqueles que um dia compuseram-na. Por meio de regimes militares ou sequer precisando recorrer a isso, por todo o ocidente os fascistas derramaram sangue dentro de suas câmaras de tortura e foram, um a um, eliminando pessoas indiscriminadamente meramente por elas parecerem anti-conformistas. Petrifique seu rosto em um sorriso e não diga nada, apenas obedeça - Essa foi a ordem fascista, se reduza a uma engrenagem na máquina assassina que eles construíram. Mataram as pessoas e mataram os movimentos até que aquilo que um dia foi uma força capaz de transformar o mundo se reduziu a um arredondamento. Movimentos estudantis, a rebeldia, os partidos comunistas, as organizações queer e os movimentos anarquistas - todos reduzidos a manchas secas de sangue numa parede e a pó compondo alguma parede em Brasília.
A Etapa 2 desse processo ocorreu ao longo dos anos 80 e 90. Para impedir que das cinzas esses movimentos anticonformistas ressurgissem sob novas formas, diversas campanhas de pânico moral foram iniciadas ou endossadas - o mesmo aconteceu nos Estados Unidos e também na Alemanha até onde tenho registro. Ainda restava, apesar das chacinas cometidas nas décadas anteriores, uma cultura anti-conformista na juventude, validada e intensificada justamente pela repressão e censura fascista; parte dessa cultura se dava nos espaços hobbistas - no meio otaku, nos rpgs, nos espaços nerd femininos e na música.
Os conformistas, governados principalmente pelas diretivas reacionárias propagadas na mídia por meio dos discursos moralistas e alarmistas e outras estratégias de desinformação, atacaram os góticos e punks, a comunidade queer e a comunidade feminina. Também ocorreu uma subsunção dessas comunidades às culturas de consumismo e serviço onde os "fãs" se veem como investidores e acionistas, como pessoas que têm o direito e dever de dar chilique e ameaçar de morte os criadores que seguem. Não existe mais subcultura, o que resta é apenas produto.
A Etapa 3 ocorreu ao longo dos anos 90. Os fascistas cantavam vitória, a União Soviética se desfez. Paralelamente, eles ocupavam e colonizavam a internet. A ideia era utilizá-la para criar novos mecanismos de espionagem e perfilamento. Desde antes do 11 de Setembro, a CIA já tinha interesses em desenvolver um mecanismo que os permitisse "prever crimes" e "agir sobre crimes antes que eles ocorram". Mas enquanto elementos técnicos mantinham isso impraticável, as forças reacionárias continuaram a minar o anti-conformismo, agora nos espaços online. Também ocorreu o processo de cultivo de fascistas nos espaços de internet, utilizando de estratégias de aliciamento, difusão e camuflagem. Grosserias e ataques eram deliberados visando a remoção de não-conformistas por meio do desgaste e utilizando da conformidade para rotular respostas e reações como "Conteúdo Político", jogando o resto da comunidade contra as pessoas que era antitéticas ao fascismo - a crítica e o conflito são algo de fato desconfortável, mas são necessários para que a situação não piore.
A partir disso foram se criando as fórmulas de conformismo que assombraram os anos 90 a 2000 - a proibição ou desincentivo a discussão "política" (leia-se: Não-conformista) nos espaços hobbistas, o excesso de tolerância a ofensas e discriminações publicados sob a fachada de conteúdo humorístico e a crescente toxicidade e fascistização do público e dos espaços online e de jogos - tanto na vida real (por meio da prática que veio a ser conhecida como gatekeeping em eventos) quanto online. Tudo isso, utilizando de fórums, image boards online e os espaços não-moderados que são os chats de jogos online, financiados e apoiados por figuras como Jeffrey Epstein e Steve Bannon, culminou numa massa crítica reacionária que eclodiu em uma nova forma do movimento de extrema-direita.
E então a Etapa 4. Estamos vivendo a etapa 4. Os germes fascistas que foram plantados foram ativados para eclodir. Eles estão em todos os lugares - na cultura punk, nos espaços comunistas e anarquistas, nos círculos góticos, nos fóruns de jogos, nas comunidades de anime. Todos os "grandes espaços" foram infestados por eles - querem nos dar a impressão de que o status quo, de que aquilo que as comunidades "desejam" é justamente o fascismo. Mas isso é um truque de luz, uma prestidigitação. Os sintomas são a propagação de conteúdo com viéses fascistas, alienação, predação misoginia e masculinismo, queerfobia e outras formas de discurso de ódio - tudo isso permeando as comunidades por meio de campanhas de assédio, memes e apitos de cachorro.
O objetivo que tudo isso busca alcançar é tornar o não-conformismo impossível para que ele nunca retorne à forma que ele tinha nos anos 60. Cada publicação reacionária, cada controvérsia tola, cada agravamento de tensões e cada facho rindo da nossa cara desanima-nos e, uma a uma, vemos pessoas que gostamos abandonando as comunidades até que nós, também, acabamos por abandoná-las. De fato, os movimentos progressistas, comunistas, anarquistas, feministas, antirracistas e internacionalistas nunca retornarão à sua forma dos anos 60. A ironia é que essa condição de vitória é deles, não nossa - são os reacionários que precisam voltar para trás a roda da história. A nossa sina e a nossa força é que nós só podemos criar algo novo pois aquilo que precisamos ainda não existe. E enquanto houver a necessidade, continuará sendo possível e enquanto for possível será inevitável - Princípio da Ergodicidade.
E o que fazer?
Precisamos existir em algum espaço pois precisamos nos organizar. Não é possível definir um curso de ação sem antes ter meios para congregar. Artistas liberais tinham a visão tola de que "A arte não muda o mundo, ela muda as pessoas e as pessoas mudam o mundo". O erro está na inversão - não é a superestrutura que determina a infraestrutura mas sim o contrário: Um mundo diferente é aquilo que muda as pessoas. Alguns pós-marxistas desiludidos com o quão pouco a postura imperialista na centralidade do capitalismo mudou chegarão à conclusão amargurada e equivocada de que a arte é incapaz de mudar o mundo e, portanto, é apenas um capricho burguês. Tal posturamento é essencialmente anti-marxista, os princípios que dão potência à arte são os mesmos que dão potência ao Partido e ao Jornal. A Arte organiza semelhantes ao redor de si.
O erro que o movimento do Realismo Socialista e o posturamento dos partidos para as Artes e Artistas é vê-la como uma peça panfletária quando não é essa sua potência. Por mais que uma peça seja banal e corriqueira, o artista imbui nessa peça estruturas finas oriundas de si e essas peças atraem estruturas semelhantes presentes em outras pessoas, dessa forma atraindo as pessoas em si. A reputação da autora ou as microdecisões simbólicas ou de encadeamento, os aspectos que essa pessoa aceita abordar e os aspectos que rejeita, a profundidade com que determinados elementos são abordados e outros não - uma pessoa revolucionária, independentemente do que esteja criando, estará criando algo que, conscientemente ou inconscientemente, estará refletindo sua prática e seus limites. Panfletarismo é desnecessário, a arte, a música, a prosa e a poesia afetam o metalexical e o metasimbólico.
Mesmo autores conformistas, inevitavelmente, por acidente, criarão obras cuja estrutura fina é uma estrutura revolucionária. No fim, o espírito absoluto da classe trabalhadora é um espírito revolucionário pois, quer eles queiram quer não, a revolução se faz uma necessidade inevitável - esse é um fator. Outro fator é que o regime conformista e reacionário são fundamentalmente violentos e o reconhecimento dessa violência muitas vezes precede seu conhecimento, é um amargor que permeia todos os dias. Um terceiro fator é que conflitos são recorrentes em muitas obras e uma resolução conformista ou uma resolução anticonformista, independentemete de sua qualidade técnica, explicitam contradições na nossa sociedade. Há também o fato de que qualquer pessoa que participa ativamente da sociedade entrará em contato com elementos anticonformistas e suas mensagens, em graus maiores ou menores de radicalidade, e isso contribui nos processos de construção e reconstrução de indivíduos - a interação de elementos humanos é parte necessária da infraestrutura e esse é um quarto fator. E um quinto fator é que artistas e criadoras trabalhando ativamente precisam desenvolver algum grau de sintonia que os anseios e necessidades de seu público, com aquilo que as pessoas desejam discutir mas não encontram espaço e com aquilo que as afeta.
Não há necessidade de defender unicamente a "arte revolucionária", as pessoas já têm Revolução em sua estrutura fina como fruta do processo dialético de sujeição à violência conformista. As pessoas serão atraídas e se organizarão ao redor de determinadas peças e temas - isso permite filtrar e dar foco a determinados aspectos e procurar determinadas pessoas com necessidades e anseios específicos. Mesmo que essas pessoas saibam que precisam encontrar um Jornal ou Partido, e muitas vezes não sabem, elas não sabem onde encontrá-los. Mas tendo discernimento quanto à cena cultural vigente, o partido e o jornal saberão onde encontrar um povo para servir - e isso é particularmente importante em épocas onde a repressão reacionária é mais intensa, os riscos são grandes. Isso é o que podemos fazer.
Por fim, eu tive a impressão de que as organizações e jornais estão fechados muitos em si mesmos bem como os movimentos, as pessoas e os artistas. O mesmo pode ser dito sobre os fandoms. Precisamos de mais pessoas para fazer pontes entre diversas comunidades, grupos e movimentos, trazer e convidar mais pessoas para si e para seus hobbies. No geral, cumprir a função de difusão e mediação. O povo tem a iniciativa mas não tem um alvo onde possa exercê-la. E em múltiplas organizações e movimentos eu senti a falta de um elemento que de fato me incluisse no círculo social.