As nossas comunidades

O que aconteceu com os nossos espaços de hobby?

Em Higurashi-no-naku-koro-ni, o clã Sonozaki, uma família tradicional influente na cidade de Hinamizawa, são os principais suspeitos de serem os perpetradores em uma série de assassinatos em série ocorridos todos durante o festival do Watanagashi. O protagonista pede à sua amiga e herdeira do clã sonozaki, Mion, para que ela usasse seu poder político para assassinar o tio de uma amiga que tem sofrido constante e violento abuso. Porém, pedir isso significa insinuar e acusar Mion de ser uma assassina, algo cruel de se dizer a uma amiga.

Em tempos de crise o capitalismo se fascistiza. A Internet corporativa caminha para fechar seus tentáculos para controlar as expressões e manifestações das pessoas online. É um projeto para perfilar manifestantes, antifascistas e esquerdistas - a internet se fascistizava e nada foi feito, a conformidade interfere apenas quando aflora o sentimento revolucionário.

Esta atual etapa é a final de um processo histórico de repressão iniciado nos anos 50 - anos esses pautados pela erupção de regimes repressivos por todo o ocidente, sejam eles executados pela conformidade institucional como ocorreu nos EUA ou na Inglaterra ou sejam eles as sanguinárias ditaduras na América Latina.

A juventude dos anos 50 e 60, pelo que me foi dito, era bastante impetuosa. No Brasil as crianças estavam brigando no intervalo por causa de discordâncias quanto ao genocídio na Palestina. A identidade da juventude tinha uma enorme faceta anti-conformista e anti-conservadora, criando assim a estereotipia do jovem de 16 anos vestindo moicano e balançando alta uma bandeira do anarquismo ou a foice e o martelo. Como toda estereotipia, não era uma identidade absoluta, mas ainda era representação de algo suficientemente expressivo.

A juventude conservadora dos dias de hoje, os puriteens, os neofascistas, os jovens reacionários, os redpill - eles são a etapa final do processo de subsituição de um futuro revolucionário por um futuro conservador, O Fim da História.

Manifestantes do movimento estudantil confrontam as forças reacionárias brasileiras do regime empresarial militar durante a Passeata dos Cem Mil, em 1968. O caráter, a disposição e a conjuntura eram outros - e a necessidade para a qual eles precisavam corresponder também. Não devemos e tampouco podemos cobrar do presente o posturamento avançado que se via anteriormente, isso é antidialético - quando a necessidade urgir, essa força será acendida novamente como a maré noturna. Porém, nunca devemos nos esquecer do fervor da luta daqueles que vieram antes, nunca devemos nos permitir adestrar pela via do pessimismo. Guardemos conosco essas memórias como algo que um dia poderemos e precisaremos reproduzir à nossa memória.

A Etapa 1 desse processo foi a eliminação física da juventude e daqueles que um dia compuseram-na. Por meio de regimes militares ou sequer precisando recorrer a isso, por todo o ocidente os fascistas derramaram sangue dentro de suas câmaras de tortura e foram, um a um, eliminando pessoas indiscriminadamente meramente por elas parecerem anti-conformistas. Petrifique seu rosto em um sorriso e não diga nada, apenas obedeça - Essa foi a ordem fascista, se reduza a uma engrenagem na máquina assassina que eles construíram. Mataram as pessoas e mataram os movimentos até que aquilo que um dia foi uma força capaz de transformar o mundo se reduziu a um arredondamento. Movimentos estudantis, a rebeldia, os partidos comunistas, as organizações queer e os movimentos anarquistas - todos reduzidos a manchas secas de sangue numa parede e a pó compondo alguma parede em Brasília.

A Etapa 2 desse processo ocorreu ao longo dos anos 80 e 90. Para impedir que das cinzas esses movimentos anticonformistas ressurgissem sob novas formas, diversas campanhas de pânico moral foram iniciadas ou endossadas - o mesmo aconteceu nos Estados Unidos e também na Alemanha até onde tenho registro. Ainda restava, apesar das chacinas cometidas nas décadas anteriores, uma cultura anti-conformista na juventude, validada e intensificada justamente pela repressão e censura fascista; parte dessa cultura se dava nos espaços hobbistas - no meio otaku, nos rpgs, nos espaços nerd femininos e na música.

Os conformistas, governados principalmente pelas diretivas reacionárias propagadas na mídia por meio dos discursos moralistas e alarmistas e outras estratégias de desinformação, atacaram os góticos e punks, a comunidade queer e a comunidade feminina. Também ocorreu uma subsunção dessas comunidades às culturas de consumismo e serviço onde os "fãs" se veem como investidores e acionistas, como pessoas que têm o direito e dever de dar chilique e ameaçar de morte os criadores que seguem. Não existe mais subcultura, o que resta é apenas produto.

Mark Fisher cometeu suicídio em Janeiro de 2017 - ele nunca verá o fim do capitalismo, se matou cedo demais para ver o reflorecer das sementes revolucionárias que pensávamos estar esmagadas. A conformidade, e seu projeto reacionário, foi a responsável por sua morte. Joyce Messier em Disco Elysium é uma Ultraliberal. Nada em Martinaise pode ameaçá-la e por isso ela trata os outros com "civilidade" e "cortesia" burguesa. Porém, Cindy The Skull é aquela a criar uma rachadura na máscara de pedra liberal. Por mais que os capitalistas vejam a subcultura como incapaz de mudança, eles reconhecem em seu âmago a ameaça que tais subculturas representam a eles. Que o capitalismo seja de fato capaz de absorver todas suas críticas não é um fato, é, para eles, uma esperança.

A Etapa 3 ocorreu ao longo dos anos 90. Os fascistas cantavam vitória, a União Soviética se desfez. Paralelamente, eles ocupavam e colonizavam a internet. A ideia era utilizá-la para criar novos mecanismos de espionagem e perfilamento. Desde antes do 11 de Setembro, a CIA já tinha interesses em desenvolver um mecanismo que os permitisse "prever crimes" e "agir sobre crimes antes que eles ocorram". Mas enquanto elementos técnicos mantinham isso impraticável, as forças reacionárias continuaram a minar o anti-conformismo, agora nos espaços online. Também ocorreu o processo de cultivo de fascistas nos espaços de internet, utilizando de estratégias de aliciamento, difusão e camuflagem. Grosserias e ataques eram deliberados visando a remoção de não-conformistas por meio do desgaste e utilizando da conformidade para rotular respostas e reações como "Conteúdo Político", jogando o resto da comunidade contra as pessoas que era antitéticas ao fascismo - a crítica e o conflito são algo de fato desconfortável, mas são necessários para que a situação não piore.

A partir disso foram se criando as fórmulas de conformismo que assombraram os anos 90 a 2000 - a proibição ou desincentivo a discussão "política" (leia-se: Não-conformista) nos espaços hobbistas, o excesso de tolerância a ofensas e discriminações publicados sob a fachada de conteúdo humorístico e a crescente toxicidade e fascistização do público e dos espaços online e de jogos - tanto na vida real (por meio da prática que veio a ser conhecida como gatekeeping em eventos) quanto online. Tudo isso, utilizando de fórums, image boards online e os espaços não-moderados que são os chats de jogos online, financiados e apoiados por figuras como Jeffrey Epstein e Steve Bannon, culminou numa massa crítica reacionária que eclodiu em uma nova forma do movimento de extrema-direita.

As estratégias fascistas nunca mudam. Em 2006 surgiu o meme do "Angry German Kid" onde um garoto quebrava o teclado por causa do extenso tempo de carregamento do jogo - o conteúdo não era real, era uma encenação e um exagero. Porém, o rapaz do vídeo após os canais de telejornal da Alemanha utilizarem o vídeo para construir uma matéria falsa que buscava justificar a tese de que videogames causavam violência. A conformidade criou uma mentira para alimentar uma tese que servia meramente aos interesses comerciais dos canais televisivos, teve sua pessoa reduzida a uma caricatura e sofreu muito por causa disso. A moça difamada pelo image macro da "Feminista raivosa" sofreu o mesmo tipo de violência: Reduzida a uma caricatura retirada de contexto para que a conformidade pudesse criar um argumento não-existente. A Conformidade é fascista.

E então a Etapa 4. Estamos vivendo a etapa 4. Os germes fascistas que foram plantados foram ativados para eclodir. Eles estão em todos os lugares - na cultura punk, nos espaços comunistas e anarquistas, nos círculos góticos, nos fóruns de jogos, nas comunidades de anime. Todos os "grandes espaços" foram infestados por eles - querem nos dar a impressão de que o status quo, de que aquilo que as comunidades "desejam" é justamente o fascismo. Mas isso é um truque de luz, uma prestidigitação. Os sintomas são a propagação de conteúdo com viéses fascistas, alienação, predação misoginia e masculinismo, queerfobia e outras formas de discurso de ódio - tudo isso permeando as comunidades por meio de campanhas de assédio, memes e apitos de cachorro.

O objetivo que tudo isso busca alcançar é tornar o não-conformismo impossível para que ele nunca retorne à forma que ele tinha nos anos 60. Cada publicação reacionária, cada controvérsia tola, cada agravamento de tensões e cada facho rindo da nossa cara desanima-nos e, uma a uma, vemos pessoas que gostamos abandonando as comunidades até que nós, também, acabamos por abandoná-las. De fato, os movimentos progressistas, comunistas, anarquistas, feministas, antirracistas e internacionalistas nunca retornarão à sua forma dos anos 60. A ironia é que essa condição de vitória é deles, não nossa - são os reacionários que precisam voltar para trás a roda da história. A nossa sina e a nossa força é que nós só podemos criar algo novo pois aquilo que precisamos ainda não existe. E enquanto houver a necessidade, continuará sendo possível e enquanto for possível será inevitável - Princípio da Ergodicidade.

E o que fazer?

Kefka reduziu o mundo todo a ruínas. Ele conseguiu o que queria: Matou os peixes, as aves, tornou a terra infértil e mergulhou o mundo em eterno terror. Porém, foi justamente seu excessivo poder que urgiu a necessidade dos herois de se reorganizar e despertar novas forças - seja para sobreviver ao mundo hostil que ele criou, seja para por um fim à vida dele. A crise criou as condições necessárias para que cada personagem se aprofundasse em suas contradições e, a partir do processo dialético, superassem-nas por meio de uma síntese. O Falcão voa novamente.

Precisamos existir em algum espaço pois precisamos nos organizar. Não é possível definir um curso de ação sem antes ter meios para congregar. Artistas liberais tinham a visão tola de que "A arte não muda o mundo, ela muda as pessoas e as pessoas mudam o mundo". O erro está na inversão - não é a superestrutura que determina a infraestrutura mas sim o contrário: Um mundo diferente é aquilo que muda as pessoas. Alguns pós-marxistas desiludidos com o quão pouco a postura imperialista na centralidade do capitalismo mudou chegarão à conclusão amargurada e equivocada de que a arte é incapaz de mudar o mundo e, portanto, é apenas um capricho burguês. Tal posturamento é essencialmente anti-marxista, os princípios que dão potência à arte são os mesmos que dão potência ao Partido e ao Jornal. A Arte organiza semelhantes ao redor de si.

Rosa de Versalhes foi uma obra criada pela revolucionária Riyoko Ikeda e, mesmo nos dias de hoje, planta sementes revolucionárias e organiza pessoas que desenvolveram esse ímpeto ao redor de si. Os mangás têm uma potente corrente anti-conformista que foi podada, censurada e atenuada pelos mais diversos meios. Os meios empresariais impuseram limites e a propaganda e decisões políticas redirecionaram os focos. Mas desejo destacar que a autora também se desgastou com sua própria organização, que exigiu dela peças mais "conscientes" (leia-se: panfletarias). A Comuna de Paris e a Revolução Francesa são o Fantasma do Futuro que nos acompanha e protege, é um lembrete inesquecível de que a potência que nós temos é uma que nós meramente optamos não utilizar por questões de conveniência e circunstâncias, é também um lembrete dos erros e deficiências cometidos em cada experiência e avanço socialista para nos apresentar novas questões a ser resolvida. É um fantasma cuja paciência tem durado séculos então façamos o possível para não despontá-lo.

O erro que o movimento do Realismo Socialista e o posturamento dos partidos para as Artes e Artistas é vê-la como uma peça panfletária quando não é essa sua potência. Por mais que uma peça seja banal e corriqueira, o artista imbui nessa peça estruturas finas oriundas de si e essas peças atraem estruturas semelhantes presentes em outras pessoas, dessa forma atraindo as pessoas em si. A reputação da autora ou as microdecisões simbólicas ou de encadeamento, os aspectos que essa pessoa aceita abordar e os aspectos que rejeita, a profundidade com que determinados elementos são abordados e outros não - uma pessoa revolucionária, independentemente do que esteja criando, estará criando algo que, conscientemente ou inconscientemente, estará refletindo sua prática e seus limites. Panfletarismo é desnecessário, a arte, a música, a prosa e a poesia afetam o metalexical e o metasimbólico.

Final Fantasy 7 foi um jogo que acabou acidentalmente saindo muito do campo conformista. Mesmo que os textos e originais tentem apelar para a narrativa de "herois confusos" como fez com Barret e como tem feito com a revisão da história que são os Remakes, a mensagem que ficou foi a de que Rebelar-se é Justo. É uma obra limitada que falhou em comunicar seu conformismo e, portanto, ressonou com a estrutura fina do anti-conformismo. As representações da vastidão do espaço, as repetidas críticas à estrutura e domínio corporativo da Shin-Ra, o comentário da submissão do estado aos ditames da classe burguesa e o custo social que isso gera e uma representação, acidental, do quão assustador e perturbador o chauvinismo e zionismo de fato são por meio de Sephiroth. Nada disso foi proposital e tudo isso foi inevitável pois essas são as conclusões lógicas que sucedem a premissa.

Mesmo autores conformistas, inevitavelmente, por acidente, criarão obras cuja estrutura fina é uma estrutura revolucionária. No fim, o espírito absoluto da classe trabalhadora é um espírito revolucionário pois, quer eles queiram quer não, a revolução se faz uma necessidade inevitável - esse é um fator. Outro fator é que o regime conformista e reacionário são fundamentalmente violentos e o reconhecimento dessa violência muitas vezes precede seu conhecimento, é um amargor que permeia todos os dias. Um terceiro fator é que conflitos são recorrentes em muitas obras e uma resolução conformista ou uma resolução anticonformista, independentemete de sua qualidade técnica, explicitam contradições na nossa sociedade. Há também o fato de que qualquer pessoa que participa ativamente da sociedade entrará em contato com elementos anticonformistas e suas mensagens, em graus maiores ou menores de radicalidade, e isso contribui nos processos de construção e reconstrução de indivíduos - a interação de elementos humanos é parte necessária da infraestrutura e esse é um quarto fator. E um quinto fator é que artistas e criadoras trabalhando ativamente precisam desenvolver algum grau de sintonia que os anseios e necessidades de seu público, com aquilo que as pessoas desejam discutir mas não encontram espaço e com aquilo que as afeta.

Rose Haibara é a representação perfeita de uma liderança social-democrata bem-intencionada. Ela fundou o Clube Primavera querendo apenas garantir melhores condições e mais segurança para suas amigas e esse gesto estourou em um movimento político de resistência anti-imperial. Porém, e acidentalmente, também foi demonstrado como a social democracia não tem escolha que não seja servir de antessala do fascismo. O processo dialético de retificação do clube primavera foi violento e a organização sofreu a típica difamação anticonformista burguesa. Ryuukishi07 certamente não é um revolucionário comunista e a mensagem final de sua obra certamente não é "jogue coquetéis molotov na polícia". Sua obra me fez pensar no papel, na importância e no perigo da manutenção de uma identidade nacional em meio a um processo de resistência a avanços imperiais. O Japão não poderia ser mais diferente de nós mas, ironicamente, também não poderia ser mais semelhante - um espelho invertido.

Não há necessidade de defender unicamente a "arte revolucionária", as pessoas já têm Revolução em sua estrutura fina como fruta do processo dialético de sujeição à violência conformista. As pessoas serão atraídas e se organizarão ao redor de determinadas peças e temas - isso permite filtrar e dar foco a determinados aspectos e procurar determinadas pessoas com necessidades e anseios específicos. Mesmo que essas pessoas saibam que precisam encontrar um Jornal ou Partido, e muitas vezes não sabem, elas não sabem onde encontrá-los. Mas tendo discernimento quanto à cena cultural vigente, o partido e o jornal saberão onde encontrar um povo para servir - e isso é particularmente importante em épocas onde a repressão reacionária é mais intensa, os riscos são grandes. Isso é o que podemos fazer.

Por fim, eu tive a impressão de que as organizações e jornais estão fechados muitos em si mesmos bem como os movimentos, as pessoas e os artistas. O mesmo pode ser dito sobre os fandoms. Precisamos de mais pessoas para fazer pontes entre diversas comunidades, grupos e movimentos, trazer e convidar mais pessoas para si e para seus hobbies. No geral, cumprir a função de difusão e mediação. O povo tem a iniciativa mas não tem um alvo onde possa exercê-la. E em múltiplas organizações e movimentos eu senti a falta de um elemento que de fato me incluisse no círculo social.