Rose Guns Days
No dia 6 de Agosto de 1945, uma cidade civil japonesa, Hiroshima, foi praticamente varrida da existência por um bombardeio nuclear estadunidense. Nagasaki, outra cidade civil, também sofreu o mesmo destino. Esse tipo de ataque, se tivesse sido executado por qualquer outro país, seria hoje considerado um crime de guerra e crime contra a humanidade devido à natureza do alvo (Infraestrutura Civil) e à natureza do ataque (Arma Química/Nuclear).
Foi um ataque excessivo e gratuito. Os estadunidenses justificam esse crime sob a premissa de que ele foi um "mal necessário" para por um fim à guerra - não foi o ataque nuclear contra civís o fator decisivo que levou à rendição do império japonês, o medo de um levante comunista interno, a série de derrotas no ano de 1944 e a declaração de guerra soviética também são mencionados como elementos considerados. Mas ter a bomba atômica como causa principal permite que os Estados Unidos sobrescrevam um crime de guerra como esse "mal necessário".
O imperador genocida, Hirohito, teria sido julgado como um criminoso de guerra se não fosse pela interferência do general Douglas MacArthur, que ofereceu ao genocida a oportunidade de se manter como Monarca Constitucional mas ceder os poderes a um primeiro-ministro e tornar o Japão uma base estadunidense visando a finalidade comum de todos os fascistas: combater o comunismo. A ocupação estadunidense no Japão gerou uma série de conflitos ideológicos, entre o imperialismo estadunidense e o fascismo imperialista japonês, e sociais, entre as forças de ocupação estadunidenses e a população sujeita ao seu abuso.
Parte desses abusos eram os típicos crimes imperialistas cometidos por forças de ocupação imperialistas: Estupros, extorsão e tortura. A outra parte desses abusos envolvia a aliança entre o fascismo japonês e o fascismo estadunidense no combate às organizações de trabalhadores e manifestantes por meio de sabotagens e repressão policial.
À medida que o povo ia tornando o seu descontentamento mais violento e vocal, como na revolta do arroz de 1918 ou na greve dos metalúrgicos em 1907, os partidos e organizações socialistas e comunistas ganhavam força e apoio. Em resposta, o fascismo japonês se celerou mais e mais culminando no projeto imperialista de criação de uma "esfera de co-prosperidade asiática". Esse foi o pano de fundo que levou à construção do movimento estudantil Zengakuren. O movimento, aliado ao Partido Comunista do Japão, sofreu um golpe por parte de uma seção quinta-coluna "anti-stalinista", se opondo ao PCJ e buscando a formatação de um movimento de "Nova Esquerda". Associado a esse contexto histórico temos Riyoko Ikeda (Autora de Rosa de Versalhes) que tinha vínculos com o PCJ; Asao Takamori e Tetsuya Chiba (Ashita no Joe), embora não envolvidos, também marcaram o contexto cultural do momento.
Após os anos 70, o movimento perdeu força e se diluiu como um progressimo difuso e mal organizado na sociedade japonesa. Comunistas passaram a ser tratados como terroristas perigosos e maconheiros pelos público desinformado e, no presente, o Japão se torna celerado mais uma vez enquanto o fascismo latente desperta mais uma vez em virtude da atual crise de realização do capital. Todo esse contexto é um preâmbulo para informar o contexto histórico que inspirou Rose Guns Days.
Rose Guns Days (RGD) é uma Visual Novel escrita por Ryuukishi07 e publicada em 2012, ela é um drama-documentário histórico ambientado em um Japão fictício que se rendeu no dia Primeiro de Abril de 1944 após um enorme terremoto ter reduzido Tóquio a pó e ter devastado boa parte do Japão. A história acompanha a jornalista Julie Hayashibara que, em virtude de sua ancestralidade japonesa, foi convocada para escrever uma matéria por ninguém menos que a matriarca de uma organização nacionalista japonesa, Jun "Madame Jeanne" Amakawa. Ela conta os eventos que ocorreram de 1947 a 1952, expondo o passado oculto que fundou sua organização criminosa.
A obra retrata esses eventos como eles ocorreram no período com ocasionais comentários e intervenções de Jeanne e reflexões de Julie a respeito dos relatos e do contexto inédito sendo revelado. A visual novel é dividida em quatro temporadas e a primeira acompanha o ano de fundação da Família Primavera, 1947, e tem como protagonistas Leo Shishigami e Rose Haibara.
"E assim vai indo.Sem nem perceber, já estamos em 1947!" Leo conversa com Rose sobre seu retorno tardio ao Japão. A guerra acabou em 1944, mas circunstâncias fizeram com que ele só voltasse em 1947 e ainda por cima ficasse seis meses preso no processo de repatriação devido ao tumulto burocrático causado pelo controle imperialista estadunidense e chinês.
Leo é um ex-soldado saído de uma guerra na qual ele nunca acreditou. Com dificuldades de encontrar o que comer e sem emprego, ele tem um encontro fatídico com Rose Haibara, uma trabalhadora sexual idealista alçada à posição de representante política mais por acaso do que por projeto, sendo a figura unificadora dentre as várias facções do Clube Primavera. Leo e Rose, mais do que terem perdido a terra natal para um projeto neocolonial relâmpago, não têm um lugar na sociedade que está se formatando, dividida entre neoliberais oportunistas e fascistas ressentidos que assediam e atacam o próprio povo. O tema central da primeira temporada de Rose Guns Days são as várias expressões de um Nacionalismo em declínio, os conflitos internos entre japoneses e o que fazer com uma identidade japonesa já completamente destruída.
"No dia primeiro de abril de 1944, um desastre natural arrasou o Japão de tal forma a levar a guerra ao fim."
"Com o orgulho nacional em disputa, tanto China quanto Estados Unidos competiram apressadamente para decidir quem restauraria esta terra devastada"
"Em seguida, em nome da ajuda humanitária, as forças armadas aliadas Chinesas e Ianques ocuparam o país"
"Consequentemente, Tóquio fora engolida pela cultura Chinesa e Estadunidense e pelo grande número de imigrantes... e apenas o nome continuou intocado"
"Leo: O grande desastre e a reconstrução apressada eliminaram qualquer traço daquilo que cá um dia já esteve."
O cerco do domínio imperialista e a farsa da ética liberal
O contexto e escolha temática de Rose Guns Days é um assunto delicado. Visto de longe e sem contexto, uma pessoa reacionária leria no jogo uma afirmação da "Teoria da Substituição", empregada por xenófobos fascistas no mundo todo, alegando que imigrantes estariam empregando ou sendo utilizados em um projeto para substituir e eliminar a cultura e a genética local.
O uso cuidadoso de detalhes e escolhas temáticas negam essa tese no metatexto. Mas no texto, Julie provavelmente leu a Harukaze, O Clube Primavera e Jeanne como elementos ultranacionalistas xenófobos - o que provavelmente é o consenso conformista indiscriminado a respeito de qualquer partido nacionalista japonês no mundo de Rose Guns Days. Eu leio RGD como uma obra anti-imperialista.
Primeiro pois Ryuukishi07 foi censurado nos lançamentos para console de Higurashi, onde comentários longos que ele expôs a respeito dos crimes contra a humanidade cometidos pela Unidade 731 foram paralelizado com elementos de horror apresentados na história. Segundo pois vários detalhes assemelham o Clube Primavera e a Harukaze mais aos partidos de esquerda ou partidos comunistas do que organizações de direita, principalmente dados os paralelos e conflitos apresentados pela novel. Terceiro pois o texto da novel evoca um metatexto muito caro a nós, pessoas do terceiro mundo, que enfrentamos uma eterna "síndrome de vira-lata".
"Julie: Exceto para aqueles buscando se graduar em Estudos Japoneses, tem se tornado cada vez mais raro que estudantes escolham estudar japonês."
"Julie: Até mesmo os programas televisivos são quase todos em Inglês ou Chinês, esses dias mais um programa de Língua Japonesa foi cortado devido às baixas classificações."
"Leo: As placas estão todas em inglês e, dentro e fora, tudo foi construído de forma ocidental."
"Rose: Temo que as crianças do futuro crescerão sem nunca ter provado comida japonesa."
Um tema que é muito caro a RGD é o assassinato da linguagem e da cultura local como processos neocoloniais imperialistas. Liberais e neoliberais veem o cosmopolitanismo como uma característica positiva, tentando atribuir a ela um caráter anti-xenofóbico. Mas isso não passa de uma forma de parametrizar culturas e necessidades de forma a garantir mercado e mão-de-obra.
O cosmopolitanismo se expressa não a partir da soma das culturas presentes numa sociedade - se essas culturas não forem brancas, elas são sumariamente apagadas e criminalizadas - ele se expressa a partir dos ícones, formas, arquitetura e ethos do núcleo imperialista. As grandes cidades com seus vários arranha-céus e centros urbanos adensados são expressões arquitetônicas de países de clima temperado europeu e norte-americano, feitos para atender as necessidades térmicas desses locais e produzir ilhas de calor como forma de combater o frio. Tal urbanismo não tem lugar em países de clima tropical e mesmo assim vemos recorrentemente tal planejamento urbano sendo utilizado e causando problemas - o motivo é capital, venda de concreto e técnica e maquinário.
Enquanto isso, nos mesmos centros "cosmopolitas" pouco se vê de arquitetura e cultura africana, indiana, chinesa, eslava, árabe ou indígena salvas as exceções feitas para comprovar a regra - normalmente reduzidas a produtos ou adensamentos turísticas, quando muito um bairro onde imigrantes foram concentrados durante um período discriminatório. O que existe a cultura "cosmopolita" e todo o resto recebe a pecha de "exótico".
RGD em particular me faz pensar nos povos originários brasileiros, os povos indígenas e as dezenas de linguagens a eles associadas - a língua Ianomâmi, Macuxí, Uapixana, Pirahã e o Nheengatu para mencionar algumas. Línguas que, fora de suas comunidades, no Brasil, são relegadas ao papel de curiosidades acadêmicas ou permanecem como apêndices da era colonial. Aqueles que vivem na metrópole agem como se indígenas não existissem mais ou como se fossem algo confinado no fundo de alguma floresta sem nome.
E pensar isso me faz ler a Harukaze, a organização de Jeanne que ela usa para apoiar e manipular partidos nacionalistas japoneses, como algo próximo daquilo que aqui é um movimento ou coletivo indígena. No mundo de RGD, a possibilidade de estudar japonês e cultura japonesa provavelmente só existe porque muitas pessoas lutam por isso. Na vida real algo parecido ocorre, o epistemicídio só não foi finalizado pois há pessoas que teimam em não desistir.
"Leo: O Japão perdeu a guerra e foi... destruído."
"Assistente: Após o desastre, multidões de pessoas foram colocadas em campos de trabalho pelas forças de ocupação e realocadas à força"
"Assistente: Ouvi que muitas pessoas no começo tiveram que se mudar por causa das políticas empregadas pelas forças de ocupação americanas e chinesas"
"No período agitado do pós-guerra, ouvia-se rumores de que ter um nome que parecesse japonês poderia ser uma desvantagem em áreas sob jurisdição estadunidense."
"Butler: O governo americano protege os americanos, o governo chinês protege os chineses" "Mas o governo japonês, que devia proteger os japoneses, caiu."
Por mais que a institucionalidade burguesa seja uma farsa, ela ainda é uma farsa que dá às pessoas algum grau de organização, mesmo que efêmero e oportunista. A destruição dessa institucionalidade e o controle dela por forças imperialistas durante um regime de exceção praticamente elimina toda e qualquer possibilidade de, em termos empregados por Hirschman, uso de Voz (Voice), restando apenas a saída (Exit). Não há uma ágora onde as pessoas tenham pelo menos a esperança de serem ouvidas, então todos os apontamentos e protestos são reduzidas a reclamações mudas em privado entre pares.
Outra estratégia que o imperialismo costuma utilizar é a realocação forçada, seja por meio de obras de construção ou seja por meio dos danos de guerra. Isso mina laços e organizações existentes no país invadido e facilita a divisão enquanto impede o surgimento de núcleos de resistência, assim impondo uma conformidade pessimista sobre a população invadida. Tal estratégia também é frequentemente empregada contra povos indígenas e camponeses por meio das práticas de invasão de terras ou construção de infraestrutura (infraestrutura essa muitas vezes desnecessária).
E esse processo que desorganiza e cala o povo favorece uma maior proletarização da população local - redução de salários, menos direitos e mais violência. Em RGD, o contexto de reconstrução é utilizado para embranquecer as relações imperialistas representadas, mas a proletarização e o trabalho forçado não são tornados menos violentos pelo contexto. A prática de alienar as pessoas de seu trabalho e sujeitá-las é típica da "ajuda humanitária" imperialista - mas o que esse povo quer é apenas ser deixado em paz para reconstruir o que o império destruiu, o caráter humanitário é uma fachada.
"Leo: É como dizem por aí, um lar é mais que um lugar onde vão enterrar seus ossos. Deve ter mais pelo mundo que só o Japão, né?"
"Leo: Essa é a cidade onde eu cresci. Não quero ir para nenhum outro lugar."
"Leo:Por outro lado, ver a minha cidade natal completamente transformada com exceção do sol e dos céus é mais cruel que uma ventania na tempestade."
Uma pessoa ingênua diria, sem qualquer malícia no coração, que basta as pessoas saírem quando as coisas ficam ruins demais. Essa é a Saída, o Exit. Dizem isso pois à medida que se tornou mais comum o neoliberalismo jogar os trabalhadores para onde lhe for mais conveniente, as pessoas perderam o apego aos seus laços locais e sociais. Não é apenas o advento da internet modificando o conceito de distância, as pessoas estão conhecendo menos e menos a respeito da cidade que as cerca - como não há estabilidade no neoliberalismo, também não há chão - e não há lugar onde não há chão. As pessoas não se apegam.
Mas quando as pessoas são forçadas ou intimidadas a se deslocar, o apego das pessoas ao chão volta a se expressar, independentemente do quanto ela foi alienada de sua localidade. Há um elemento epistêmico que prende as pessoas: Sua familiaridade com a temperatura, com os ciclos climáticos, com as necessidades e adversidades particulares de sua localidade e as habilidades e conhecimentos que ela desenvolveu. Há um elemento social: é praticamente impossível deslocar o seu capital social - mesmo que uma pessoa consiga deslocar todas as pessoas de seu círculo social próximo para outra localidade, seus papéis e funções sociais mudarão drasticamente e consequentemente se mudará a relação entre as pessoas. Por fim há o elemento afetivo ligando as pessoas à terra, a memória do local e o senso de pertencimento àquele lugar.
Portanto, a Saída é uma opção tão inviável quanto a Voz. O liberalismo, de forma cínica, se estrutura de forma a oferecer apenas essas duas alternativas e então, de forma velada, nega ambas. Não há força da natureza impedindo uma pessoa de tentar assassinar quem as oprime - Shinzo Abe foi assassinado com uma arma de sucata - o impedimento é social e político, mas a punição não irá retroagir sobre um assassinato executado com sucesso. Mesmo assim esse impedimento ainda é suficiente para impedir ações além do Voice e do Exit, pelo menos até uma sociedade chegar ao seu limite de tensionamento - algo que sempre é uma tragédia absoluta que envolve a morte de dezenas de milhares de pessoas em menos de uma semana.
Tal como você é "livre" para assassinar Javier Milei, Donald Trump, Jair Bolsonaro ou Nayib Bukete, você também é "livre" para usar sua "Voz" ou "Saída". O conformismo mina todas as ações que não sejam a obediência e se preocupa cada vez menos em manter as aparências. Quando a punição por não obedecer não é judicial, ela se manifesta de forma estrutural e, em tempos de crise, torna-se também judicial independentemente das circunstâncias.
"A cidade 23 estava sob jurisdição do exército estadunidense e portanto foi tornada em uma colônia para americanos assim que iniciou-se a reconstrução da cidade"
"Recrutador:Precisamos da força de jovens como você agora! Vamos lutar juntos para trazer paz ao extremo oriente!"
"Leo: Que tristeza... Eles não te tratam como gente a não ser que você saiba falar inglês."
"Rose: Mas assim, a qualidade de vida para as pessoas que vivem aqui vai..."
"Butler: Vai melhorar, sim. Mas apenas para os americanos que têm o direito ao voto nas eleições presidenciais"
Rose Guns Days aborda a questão das relações internacionais, muitos elementos e questões não são mencionados nominalmente mas, dado o contexto histórico, a disputa Sino-Estadunidense pelo Japão provavelmente se dá em um contexto imediatamente antecedente à Guerra Fria. A primeira temporada foca principalmente nos Estados Unidos e no seu papel e intenções neocoloniais. Philipp Butler representa a figura do militar corrupto, que negocia com gangues locais e utiliza pessoas vulneráveis para atingir seus fins, mas ele também representa o malandro mulherengo de bom coração e seu caráter ambivalente é a única conexão e voz que o Clube Primavera tem com as forças de ocupação estadunidenses.
Militares estadunidenses protegem apenas cidadãos estadunidenses e deixam o crime organizado operar como deseja nos guetos japoneses. Rose, buscando trazer essa proteção para as outras garotas de programa, negocia com Butler - o clube primavera serviria como um fornecedor de inteligência para as forças de ocupação estadunidenses e em troca os militares protegeriam o clube e as garotas. Logo ao norte da Cidade 23 há uma cidade de ocupação chinesa e, portanto, ter acesso a esse tipo de inteligência é um recurso estratégico. Além disso, como as relações são extralegais e a maioria dos japoneses e pessoas envolvidas no clube primavera não fala inglês, o clube também poderia servir de bode expiatório caso algo desse errado.
As relações entre Japão e Estados-Unidos foram turbulentas também na vida real. Diretores e autores de animações como Hayao Miyazaki publicizavam o seu descontentamento com a crescente subsunção do Japão aos valores culturais e hábitos estadunidenses e ocidentais. O Plano Dodge submeteu a economia japonesa no final dos anos 40 a uma economia de austeridade enquanto injetava capital na economia e indústria japonesa de forma a garantir uma vida de liquidez para mercadorias estadunidenses ao mesmo tempo que criava um offshore no Japão para a produção de bens de consumo baratos que depois alimentariam também o consumismo estadunidense como forma de apaziguar tensionamentos domésticos, produção essa barateada pelos direitos sob constante ataques e completa sujeição da economia japonesa aos ditames ianques. Direitos eram cedidos para enfraquecer os elementos remanescentes do imperialismo local e então eram retirados antes que a população pudesse desfrutar - não eram direitos de fato.
"Independentemente do trabalho e do salário, homens se aglomeravam (ao redor do caminhão de transporte) como se fossem mortos-vivos"
"Apenas falantes de inglês. Apenas falantes de japonês. Fluência básica necessária"
"Leo: Agora eu entendi. É por isso que a multidão de pessoas que só sabem falar japonês ficam do lado de fora procurando bico como trabalhadores braçais"
"Homem: Aquela fábrica é um lixo, te fazem trabalhar feito um pangaré e então te pagam com porra nenhuma."
Afastando os Fascistas
A questão trabalhista é a tônica de Rose Guns Days. Foi isso que levou Leo até Rose para trabalhar como segurança no cabaré, não que ele tivesse algo contra mas ele apenas não esperava encontrar trabalho lá. As alternativas que ele viu eram se tornar um soldado a mando dos estados unidos, virar um criminoso ou trabalhar em regime semi-escravo informal.
Todos os conflitos em RGD são conflitos motivados por conflitos de classe - particularmente trabalhos da classe informal e lumpenproletarizada. Mas Ryuukishi07 tomou a brilhante decisão de dar protagonismo à classe das trabalhadoras sexuais, as garotas de programa. O efeito prático disso é que isso repele elementos moralistas e reacionários e afasta-os da obra enquanto aproxima elementos favoráveis ou abertos a considerar essa perspectiva.
Mas Ryuukishi tem suas limitações. Ele continua sendo um tiozão japonês, ele vê o transgênero por uma via essencialista de "alma trans" e o locus de enunciação dele ainda é o de um homem japonês. Mas eu não cobro de RGD ser uma densa dissertação sobre Feminismo Proletário - não é necessário; a escolha de tema e a escolha desse prisma específico já basta para organizar ao redor de si um certo tipo de pessoa e afastar outro tipo.
Nesse sentido, RGD talvez seja uma obra mais "Comunista" que o próprio Ryuukishi. Basta colocar os elementos corretos e levantar as perguntas corretas, dar à obra a devida profundidade se torna uma atribuição de quem lê e fazer isso é um dos pontos fortes da prosa de Ryuukishi. Ele diz muito com pouco.
"Rose: É exatamente por isso que devemos nos ajudar como pessoas de uma mesma nação...!"
"Claudia: Eu só espero que os estrangeiros possam um dia aproveitar a nossa cultura, mesmo que só um pouquinho dela"
"Keireiji: Aqui somos todos Japoneses. Você tem um nome Japonês que possa enunciar com orgulho para os céus, não tem?"
"Keireiji: E até hoje eu continuo sendo o líder dessas tropas agitadas. É responsabilidade minha garantir que eles não fiquem jogados pelas sarjetas."
O tema de Nacionalismo, principalmente em um país sob domínio neocolonial, é um assunto delicado. Os liberais, por meio de sua "teoria" da ferradura, equivalem os comunistas ao fascistas como forma de propor um centrismo conservador imobilista e se esquivar de discussões. E essa proximidade entre Comunistas e Fascistas de fato é um calo no pé de muitos comunistas, ela existe e é algo que eles não sabem discutir da forma breve que os liberais exigem.
Mas isso continua sendo um sofismo. Há "proximidade" entre Fascistas e Comunistas pois os dois estão disputando o mesmo espaço, proximidade é inevitável, é parte do processo dialético e é parte da contradição. Enquanto os comunistas são melhor definidos como Populistas Revolucionários Radicais, os Fascistas são melhor definidos como Populistas de Conformismo Radical - seus objetivos não poderiam ser mais antagônicos justamente pelos dois serem populistas.
Liberais utilizam populista como um termo pejorativo, mesmo estratagema que utilizam ao definir qualquer governo mais democrático como uma "Oclocracia". E análises liberais da dita categoria do "Autoritarismo" mencionam frequentemente o aspecto populista sem distingui-lo e sem colocar em evidência o conformismo radical dos fascistas - do contrário estariam denunciando o próprio regime liberal, que também é radicalmente conformista.
Keireiji é o personagem em Rose Guns Days que levanta essa questão da proximidade mas também cria o contraste que permite distingui-lo da Madame Jeanne ou da Madame Rose e da organização Primavera. Ele é um militar de média patente do Império Japonês que tem ressentimento para os estados unidos, um ultranacionalismo e uma perspectiva conservadora. É um personagem protofascista e fácil de paralelizar com figuras como Yukio Mishima.
Na questão de Nacionalismo, o Clube Primavera representa uma perspectiva de autodeterminação Japonesa somada a um internacionalismo proletário, posturas mais associadas à esquerda. Enquanto Keireiji representa elementos remanescentes do fascismo japonês, o Kokkashugi. Sem ele, haveria ambiguidade se Rose Guns Days seria uma obra apologista para o Kokkashugi ou não.
Um elemento curioso que RGD levanta é como a facção Keireiji tem facilidade e abordar determinados ressentimentos, medos e ansiedades da população (particularmente a população masculina) que organizações como o Clube Primavera têm dificuldade de discutir dado o seu caráter, composição e proposta. Keireiji consegue conversar sobre ressentimento, ressentimento masculino e ressentimento de guerra. O Clube Primavera não consegue conversar sobre isso pois não apenas o seu locus de enunciação é completamente diferente, mulheres que em sua maioria permaneceram no japão e foram as principais afetadas pelo terremoto, como também a discussão sobre temas caros aos fascistas vem carregada de riscos e desavenças.
É justamente esse espaço que permite o desabafo do ressentimento de guerra que atrai Leo a Keireiji e seu boteco inicialmente.
"Bucha: O japão nem existiria mais se não fosse por nós, homens, termos arriscado nossas vidas no campo de batalha, me digam se tô errado"
"Cliente: Essas porra de mulheres! Elas ficam por aí seduzindo os estrangeiros e recebendo rios de dinheiro!
"Outro cliente: É isso aí, são todas umas vendidas! Essas mulheres japonesas só fazem flertar com estrangeiros!"
"Mandando a real, os homens não têm nada a vender, mas as mulheres conseguem vender o próprio corpo"
"Leo: Bem, duvido que elas estejam se vendendo para estrangeiros por querer viu."
Considerando o contexto de Rose Guns Days, é bem provável que a grande maioria das mulheres e crianças tenham morrido no terremoto. As que sobraram, junto com os homens que não foram convocados para servir, certamente trabalharam nos esforços de reconstrução. Mas a situação infraestrutural da forma e do caráter do trabalho fomenta a misoginia e se manifesta por meio de ataques a uma categoria que nem está presente para se defender.
Quando o discurso contra as prostitutas não tem esse caráter de "trabalho fácil", normalmente dito por homens e mulheres que nunca tentaram ou consideram se prostituir, o discurso tem um caráter higienista, reduzindo prostitutas a vetores de doença como se elas fossem ratos da peste.
E embora, na superfície, o discurso pareça ser sobre prostitutas ele é de fato um ressentimento para as mulheres, escolhendo uma categoria vulnerável para mascarar aquilo que de fato é um discurso misógino. Essas máscaras vão caindo uma atrás da outra até chegar no discurso masculinista de que "mulheres têm privilégios pois basta elas chorarem um pouquinho que todo mundo fica com pena e faz o que elas querem".
Tanto no boteco de Keireji quanto nas cantinas proletárias, o que reina é o ressentimento masculino do homem proletarizado. Embora Leo tente fazer uma oposição tímida, o que ele diz é desconsiderado, tratado como piada ou desconversado todas as vezes. Não é viável combater o elemento superestrutural, a misoginia, sem antes combater o elemento infraestrutural.
Você pode apresentar o melhor argumento do mundo, a infraestrutura irá reforçar o ressentimento e o homem continuará sendo misógino a menos que o seu papel particular na infraestrutura mude. Leo é a representação disso, o que o impediu de se tornar um proletário misógino ressentido foi não apenas a sua ética mas também o trabalho que ele ocupa e as pessoas que o cercam - em outras palavras, o seu papel na infraestrutura.
"Leo: Parece que também tá complicado para as mulheres. Pelo visto elas não conseguem atrair clientes a menos que saibam falar inglês"
"Claudia: Eu gosto do clube por aquilo que ele é. Eu conheci muitas pessoas interessantes e aprendi um montão de coisas por causa dele."
"Rose: Nós vendemos a nossa juventude, o período das nossas vidas onde as pessoas ainda nos amam... nós vendemos a nossa felicidade em troca de dinheiro."
"As Moças da Noite são máquinas de chupar dinehiro?! Eu não irei permitir que você diga uma coisa dessas! Isso não será perdoado!"
A misoginia é contrastado pelos posicionamentos das próprias mulheres e a obra nos apresenta uma grande variedade de motivos que levam mulheres a ocupar essa posição, bem como uma variedade de posturas. Uma versão particularmente perniciosa e desonesta do discurso moralista e misógino utilizado contra as garotas de programa é o verniz progressista que as coloca como vítimas de circunstâncias que são forçadas a exercer uma atividade "imoral e ilegal", levantando a questão da insegurança na profissão mas se recusando a confrontar com as estruturas patriarcais que forçam a profissão a se submeter à tais condições precárias.
De um lado temos Amanda, uma mulher mais velha que se formou professora de inglês e que, embora não tenha ressentimentos, é mais conservadora e busca se distanciar da profissão de prostituta o quanto antes. Do outro lado temos Claudia, uma mulher mais jovem que utilizou esse trabalho para acumular capital para realizar o seu sonho de abrir um restaurante e que celebra o seu tempo no clube.
Temos Stella, que está no auge do seu período na profissão. Sua rival é Meryl, uma alcoólatra impulsiva mas que sempre está à disposição. Amanda, Stella e Meryl lideram, cada uma, uma das três facções do Clube Primavera e foram unidas pelo seu respeito e devoção a Rose.
Embora não seja dito explicitamente no texto, eu tenho uma suspeita de qual é a causa do conflito e rivalidade entre Stella e Meryl. Meryl é uma mulher mais baixa e que não aparenta ter a idade que tem, ela é tratada como a irmã mais velha do Clube. Enquanto isso, Stella é inteligente, sabe falar três línguas e é muito inteligente mas está correndo contra o tempo, sabendo que o seu corpo não envelhecerá bem. Stella menciona a questão da aposentadoria mas Meryl não, o clube é tudo que ela tem e tudo que ela terá - a vida dela já "acabou" e ela está frequentemente afogada no álcool por causa disso e sentimentos de inadequação e mágoa surgem quando ela é comparada a Stella. O biotipo das duas levanta duas posturas que dividiriam o clube primavera: Um posturamento curtoprazista (Meryl) contraposto a um posturamento de longo prazo (Stella) - morrer na profissão ou se aposentar dela.
"Meryl: Já com as mulheres é diferente. Quando ficamos velhas, não sobra mais nada para nós. Sentimos esse medo todos os dias."
"Meryl: Os homens só ficam doidinhos por nós durante um período muito curto e tenro entre o dia que nascemos e o dia que morremos."
"Leo: Um homem não deve abrir mão da própria vida tão facilmente."
"Leo: Homens são essencialmentes soldados, se não tem ninguém para ficar dando ordens, nós acabamos ficando num marasmo e fazendo nada"
"Homem: AHahahaha... As mulheres tratam homens sem dinheiro como se fôssemos vira-latas..."
"Stella: Isso mesmo. Eu não desejo me tornar o tipo de mulher que só consegue viver graças ao apoio de um homem"
E então temos o papel dos dois gêneros da estrutura patriarcal. A estrutura patriarcal é bem-sucedida em sua missão de ajudar a eliminação de outros povos pois ela é o mecanismo fundamental do processo de proletarização, de nos tornar prole. A função da mulher é parir e a função do homem é morrer. As pessoas submetidas a esses dois gêneros desenvolvem medos e fobias e impulsos específicos como forma de se adequarem à infraestrutura.
Os homens não vêm qualquer valor na própria vida pois o patriarcado precisa que eles morram logo para não ter que entregar a promessa da posição de patriarca, ele é um grande cassino que usará de todos os meios para não ter que pagar as fichas. Portanto, eles são impulsivos e dispostos ao suicídio, se arriscando de forma desnecessária e causando problemas a todo mundo quer sobrevivam ou não. Como eles não vêm valor na própria vida, qualquer vaidade é tratada como fuga da conformidade e tratar as próprias doenças e ter cuidado com o corpo é tratado como fraqueza. Para eles, as mulheres são paparicadas, são mimadas e adoradas e eles são lixos putrefatos cujo valor reside apenas em sua utilidade e que serão sacrificados à granel pela sua tribo ou estado-nação.
Já as mulheres foram ensinadas a submeter e capitular, a parir, obedecer e calar a boca. A função da mulher é gerar outras mulheres e trabalhar nas funções reprodutivas para que possam continuar parindo enquanto continuarem férteis. Embora a infraestrutura não vise sacrificá-las em massa, ela deixa bem claro que elas só têm algum valor enquanto forem jovens e não hesita em descartá-las caso sejam ou se tornem incapazes de reproduzir - o etarismo é mais intenso e mais violento contra mulheres e gera uma eterna ansiedade que gera um vício em vaidade nascido de uma necessidade de sobrevivência. O estupro e outras formas de violência sexual se tornam justificados, inclusive no sentido legal, como via para forçar a gravidez. Enquanto isso o aborto ou até a cesárea são vilanizados e criminalizados independentemente das circunstâncias ou da sobrevivêNcia da mulher - se ela não consegue reproduzir então ela merece morrer. Para elas, os homens têm futuro, são adorados, são folgados e a sociedade os cultua incondicionalmente enquanto a elas só resta o apodrecimento e o abandono.
Os conflitos entre homens e mulheres são parte da infraestrutura, é importante que um gênero sinta inadequação e tenha a impressão de que as pessoas preferem o outro gênero. Embora a sociedade seja patriarcal, ela não cultua homens - o patriarcado é instrumento da classe dominante e dela apenas. O homem proletário recebe uma falsa promessa num cassino e a mulher é proibida de jogar, um é feito de otário e a outra de mobília. Mas como um dos lados foi ensinado a calar a boca e se submeter, é esse o lado que necessariamente sofrerá violência de todos os lados. O outro lado precisa constantemente exercer essa violência contra o outro gênero e seus pares pois do contrário ele será sujeitado a essa violência.
Isso é um sistema de abuso, foi projetado para que um lado se sinta na obrigação de oprimir do contrário ele mesmo será oprimido e por meio disso nenhuma mão será levantada contra a classe que colocou as pessoas nessa situação para começo de conversa - o patriarcado é uma máquina de gerar conformidade a partir do trauma e é ele a causa da tal da "Crise de Solidão Masculina" e a causa da violência doméstica. Mas as conversas nos meios do feminismo liberal frequentemente pouco detalham o mecanismo infraestrutural e são cooptadas para levar a discussão para o campo do superestrutural, para um moralismo ou questões de "ética e valor individual".
E os homens sabem que são causadores dessa violência contra a mulher mas admitir isso significaria atacar o próprio gênero masculino patriarcal, isso alimenta o sentimento de que eles não valem nada, cria um sentimento de culpa e os leva a se isolar e a cair em ideologias radical-conformistas como o fascismo, como o redpill e masculinismo. Mesmo o Looksmaxxing ou malhar na academia são atividades não de cuidado do corpo mas sim de autodestruição, é uma vaidade movimentada por uma pulsão de morte.
"Julie: Desde a minha infância, quando meus colegas me apelidavam de "Sushisushi geisha", eu nunca tive orgulho de ser japonesa."
"Jeanne: Você gosta de Tóquio como ela é Hoje?"
"Julie: Se eu tivesse que dizer se eu gosto ou não gosto, eu acho que eu diria que gosto."
"Julie: É verdade que há uma grande disparidade entre ricos e pobres, mas você consegue arrumar tanto problemas quanto oportunidades onde quer que você vá."
"Julie: Acho que é essa combinação de esculhambação com tolerância que faz tóquio ter o seu próprio charme e personalidade."
"Velho: Eu me ressinto com essa nossa língua. Por que os nossos ancestrais não decidiram ensinar o Inglês ou Chinês aos seus filhos?"
"Cyrus: Os chineses tão se dando bem pelo visto! O espírito deles de sempre ajudar seus compatriotas é impressionante!"
"Rose: (diferente dos outros povos) Apenas os japoneses que ignoram as pessoas de seu próprio país e fazem acordos baseados apenas em dinheiro."
Partindo a ideologia imperialista em dois com meu Ougi: Teoria Crítica.
O elemento que mais evocou em mim familiaridade e correspondência em Rose Guns Days foi o viralatismo. Esse sentimento de que os brasileiros são, em sua maioria, interesseiros e oportunistas e que só querem se dar bem. O pensamento de que adotarmos uma linguagem como o português nos afasta de muitas oportunidades...
Mas, principalmente, a perspectiva apresentada por Julie - é justamente a esculhambação e a "tolerância" com outras culturas que fazem o Brasil ser Brasil. Apesar dos pesares, eu gosto dele e não viveria em nenhum outro lugar. Ryuukishi07 capturou de forma visceral o sentimento de nascer em um país terceiromundista, do discurso até as mentiras que contamos a nós mesmes. Eu cresci no Norte do Brasil e, quando eu me encontrava com alguém do Sul ou Sudeste, sempre me comparavam a macacos e perguntavam se eu morava na floresta ou me balançava em árvores.
Eu sei que a dita "tolerância" só existe para os brancos, o Brasil é um país racista e xenófobo e foi entendendo isso que eu entendi a farsa do país cosmopolita e, estudando o Marxismo, compreendi o mecanismo imperialista e neocolonial que gesta essa síndrome de vira-lata, essa falta de uma identidade nacional mais concreta e essa autodepreciação que nos coloca abaixo dos povos brancos.
"Hoje em dia, a organização conhecida como Primavera, é vista no mínimo como uma organização nacionalista radical"
"Julie: Pensei que fosse você, madame Jeanne, a primeira Madame da Primavera."
"Jeanne: Porém, a verdade é diferente. A verdadeira primeira Madame da Primavera foi a Madame Rose."
"Jeanne (após contar a história dos primeiros dias da Primavera): Isso mesmo. Bem diferente da Primavera que você conhece, não é mesmo?"
"De fato. No começo era uma congregação para que amigas protegessem umas as outras, esse foi o começo da Primavera."
E por fim eu concluo esta publicação mencionando o aspecto da batalha pela memória. É isso que Jeanne está fazendo e é esse o pano de fundo da história. A mídia liberal profana a memória do passado e faz os recortes que são favoráveis à narrativa conformista. Nisso, muitas organizações populares e de esquerda sofrem um processo de difamação e têm o público jogado contra elas.
Para o liberal, para a imprensa marrom, boataria sem fundamento ou "Me disse que me disse" são provas o suficiente enquanto nós precisamos desencavar provas que eles sabem que são impossíveis de serem obtidas para fundamentar a nossa defesa. Há vezes em que surge uma oportunidade de trazer a tona várias evidências e aspectos que foram ignorados pela narrativa conformista da grande mídia.
Após me entender comunista e ter me organizado e estudado, Rose Guns Days me soa mais e mais como uma visual novel para comunistas, anarquistas e esquerdistas radicais. Eu sei que esse não é o posicionamento político de Ryuukishi07 e no final de Rose Guns Days ele busca deixar bem claro que o posicionamento final dele é o de um social-democrata. Mas isso não apaga o fato de que a obra dele aborda temas, dores, discussões e lutas que são caros particularmente a nós - um "progressista liberal" não entenderia como é ter toda a história da organização pela qual você milita apagada e falseada. Eles não entendem o quão importante esse tipo de coisa emergir é para nós, o processo de ficar anos tendo que apoiar sua posição sem poder ter provas pois elas ainda não emergiram e ter que se calar constantemente sobre calúnias que você sabe que são falsas por causa disso.
Essa é uma das coisas que fazem com que eu tenha tanto carinho por Rose Guns Days e considere esta a obra que Ryuukishi07 nunca conseguirá superar. Infelizmente, poucas pessoas leram RGD e muitas não ressonam tanto com os temas apresentados. Quanto mais eu estudava e quanto mais eu entendia do processo histórico real que ocorreu, mais eu relia e gostava de Rose Guns Days. Essa é a minha quinta releitura e eu irei continuar anotando meus pensamentos e considerações à medida que continuo minha leitura.
E eu quero me tornar influencer pela pior e mais desvantajosa via possível - um blog pessoal no neocities. Então não se esquece de clicar no sininho, clicar no gostei, clicar no coração, reagir com emote de risos, clicar no pacto demoníaco no canto da tela, hypar, vender o seu nome para a fada patrocinando esta publicação, clicar no tesseract, clicar no botão de iniciar a revolução comunista brasileira, clicar no anarquista para atazanar ele porque sim, adicionar os sites aos favoritos, republicar onde preferir, me mandar um e-mail e um pix e, por fim, compartilhar com es amigues pois isso me ajuda muito a continuar. Por hoje é só e com licença.